28 de maio de 2006

Patagônia 2006: A escalada do vulcão lanín

Era uma segunda feira, final de fevereiro de 2006, quando cheguei a pacata cidade de Junín de Los Andes, onde imediatamente saí em busca de informações sobre o Vulcão Lanín. Situado no sudoeste da Província de Neuquén, na Patagônia Argentina, o Vulcão Lanín localiza-se na área protegida de competência do Parque Nacional Lanín, a cerca de 110 km da cidade de San Martin de Los Andes. Lá estava eu, com um enorme desejo de conhecer e subir aquele imponente vulcão, admirando do seu cume a esplêndida paisagem da região dos lagos patagônicos chilenos e argentinos. Eu já estava bastante cansado antes mesmo de chegar ao vulcão, pois havia acabado de chegar de Bariloche, onde conheci a região do Frey e Cerro Catedral, onde caminhei bastante. Entretanto, naquele momento, perambulando pelas ruas da cidade, minha maior preocupação era encontrar alguma pessoa que estivesse disposta a compartilhar as despesas de aluguel de um rádio comunicador VHF. É que para subir o vulcão é necessário ter uma série de equipamentos exigidos pela direção do parque, entre eles um rádio VHF. Sem estes equipamentos você não ganha a autorização para subir. O aluguel do rádio VHF mais barato que encontrei na cidade custava 45 pesos argentinos por dia, o que seria muito caro para mim, que já estava viajando “na pendenga” a mais de dois meses. Como ainda não havia encontrado ninguém na cidade, resolvi comprar uma boa quantidade de comida e acampar na base do vulcão, local que supostamente seria mais fácil encontrar pessoas dispostas a subi-lo. Já com provisões para uns 6 dias na mochila, fui comprar a passagem para o Paso Mamuil Malal (Ex- Passo Tromén) e descobri que naquele dia o motorista sairia mais cedo. Voltei até o albergue correndo para arrumar minhas coisas. Cerca de 15 minutos antes da van vir me buscar, chegou no albergue um argentino de Buenos Aires, com uma mochila grande e uma piqueta pendurada nas costas. Imediatamente perguntei a ele se iria para o Vulcão Lanín e ele disse que sim, mas que não tinha um rádio comunicador. Sorte a minha, tinha acabado de conhecer uma pessoa na mesma situação, assim pelo menos o aluguel do rádio já sairia pela metade do valor. Eu e o argentino (Elói) fomos então com a van até o Paso Mamuil Malal, fronteira entre Argentina e Chile, onde montamos nossas barracas em um camping organizado. No dia seguinte ficamos descansando no camping já que o vulcão estava encoberto por uma grande massa de nuvens. Segundo as previsões meteorológicas na quinta-feira o mal tempo iria dar uma trégua, e assim esperávamos. Enquanto eu e Elói esperávamos a janela de tempo bom fizemos amizade com o funcionário que trabalha no camping e passamos o dia conversando e tomando mate argentino. Neste mesmo dia consegui ligar para casa de um telefone público que fica dentro do quartel de militares próximo ao camping, para avisar que estava tudo bem. No dia seguinte, torcendo que a previsão de tempo estivesse certa, acordamos cedo para fazer o Check-up dos equipamentos junto à direção do parque e solicitar autorização para ocupar um dos refúgios da montanha. O tempo já começava a melhorar e já era possível ver a cara leste do vulcão, justamente a rota que iríamos subir. Logo que saímos do camping encontramos dois argentinos de Bariloche (Xavier e Maurício) que estavam na mesma situação que a nossa, ou seja, tinham todo equipamento exigido pelo parque, com exceção do rádio VHF. Já fizemos amizade com eles e assim conseguimos compartilhar o valor do aluguel em quatro pessoas. Esperamos os argentinos de Bariloche se arrumarem e fizemos o Check-up dos equipos junto ao Guarda-Parque. Todos liberados e autorizados, começamos a caminhada até o refúgio que iríamos ficar, o “BIM26”. Saímos do camping, atravessamos um bosque, e logo demos início a uma caminhada sobre rocha vulcânica esfarelada. Em pouco tempo entramos numa rota chamada “espiña del pescado”, que sobe até uns 1.500 metros de altitude. Ali é necessário tomar a única via de acesso aberta aos refúgios, uma rota chamada “camiño de mulas”. Do refúgio “RIM26” é possível ir até os outros dois refúgios em cerca de meia hora. Gostaria de ter acampado no último refúgio, o “CAJA”, porque é mais alto, mas infelizmente já estava lotado. Chegando ao nosso refúgio, depois de 5 horas e meia de caminhada bem íngreme, fiz uma boa janta, tomei um chá e fiquei conversando com outras pessoas. Além de nós quatro, ainda estava no refúgio uma expedição comercial de 5 pessoas (com guia contratado), sendo 3 homens e 2 mulheres. Todos foram dormir cedo, descansar da subida e principalmente para acordar pela madrugada e fazer o ataque ao cume. Eu fui um dos últimos a deitar, fiquei observando o pôr do sol ao oeste e a sombra do lanín se projetando na planície leste. São momentos como este que justificam todo o esforço e o preço que se paga por estar ali, vendo com os próprios olhos. Depois dos últimos raios de sol fui deitar e não consegui pegar no sono. Na minha mente se atravessavam milhares de pensamentos enquanto estava deitado naquele chão de pedra fria. Estava preocupado com o tempo e não fechei os olhos um minuto sequer. Tentava me concentrar para dormir, mas ficava apreensivo e inconscientemente prendia minha atenção no ritmo da respiração das outras pessoas que estavam dormindo naquele refúgio. No meio da noite, enquanto todos dormiam, acabei saindo do refúgio por alguns instantes para ver o céu e as estrelas. E que céu! E que estrelas! Sem nuvens, o vulcão estava iluminado pela luz da lua, e acima de seu cume milhões de estrelas espalhadas no céu. Com toda certeza, uma das cenas mais bonitas que já vi. As 3h30min um relógio despertou e a expedição comercial que estava no refúgio começou a organizar sua saída. Enquanto isso eu também me levantava e preparava minhas coisas para sair logo, pois queria aproveitar as horas de noite no gelo, que estaria em melhores condições. Os argentinos que estavam compartilhando o rádio comigo também começaram a se preparar e saímos juntos, uns 15 minutos depois do grupo guiado. A noite estava linda, muitas estrelas podiam ser vistas no céu e o gelo duro apresentava excelentes condições. Se esperássemos pelo sol para sair o gelo derreteria e a caminhada na neve seria extremamente complicada. Caminhamos em fila por 20 minutos em uma trilha de muitas pedras e logo colocamos os grampões embaixo das botas. De saída subimos uma rampa de gelo e entramos num glaciar, onde contornamos uma série de grande gretas até alcançar o refúgio CAJA. Chegando lá entramos em um tramo de neve onde caminhamos por mais 1 hora até um grande platô, conhecido como “plateau de los 3000”. Bati algumas fotos do nascer do sol, que gerou uma coloração vermelha no gelo. Era possível ainda ver os lagos a quilômetros de distância encobertos por densas camadas de nuvens. Daquele local saímos pela direita, observando o Vulcão Villarica, que lançava uma fumaça negra da sua cratera, e o Vulcão Quetrupillán, que explodiu em uma erupção há algumas décadas. Logo encontramos um grupo de 10 militares que também estavam subindo, saindo do refúgio "BIM". Subimos vagarosamente por uma grande rampa de neve de onde vi o sol nascer. Ali já estava mais cansativo caminhar devido a altitude um pouco elevada. Para suportar o frio nos pés cobri minhas botas de trekking com duas sacolas plásticas de supermercado, sem contar os 3 pares de meias grossas. Mais algumas horas de caminhada e entramos em outro setor na montanha, chamado de "canaleta del cumbre", o único local de acesso ao cume pela cara norte da montanha e o último grande desafio para quem sobe por esta rota. Foi muito cansativo subir este trecho devido a sua grande inclinação, o que fez com que várias vezes pedras rolassem para baixo quando alguém as tocava. Quase no final da canaleta entramos num trecho misto, com gelo, pedras e neve, onde era preciso fazer passagens e travessias um pouco expostas. Dali para cima não havia nada para impedir a chegada ao cume. Olhei para baixo e meus três amigos argentinos estavam a uns 100 metros, junto com a expedição guiada. Para cima os militares entravam em uma rota pela direita, quando o mapa dizia que era melhor pela esquerda. Saí de um grande platô de gelo e entrei na rota da esquerda. Caminhei mais alguns minutos ignorando todo o cansaço que tomava conta do meu corpo, e a forte dor na perna esquerda. Faltando poucos metros para chegar no cume comecei a gravar um vídeo com minha máquina digital, mas as pilhas acabaram. Coloquei pilhas novas e reiniciei a gravação do vídeo. Um minuto e foi suficiente para terminar novamente com a carga das pilhas recém colocadas. Certamente a descarga das pilhas foi causada pelo frio. Eu só tinha mais 2 pares de pilhas no bolso e se as demais se comportassem da mesma maneira eu sairia da montanha sem uma foto de recordação, o que não admitia em nenhuma hipótese. Aqueci as pilhas na luva e coloquei na máquina torcendo para que funcionassem. Comecei a gravar novamente o vídeo caminhando lentamente por uma rampa de neve. Olhei para frente e vi o grupo de militares parado num grande platô, todos se abraçando, e depois deles não havia nada, apenas o horizonte se perdia de vista numa vista panorâmica. Naquele momento percebi que nada mais precisava subir e, assim, no dia 2 de março de 2006, às 11h20min, depois de mais de 30h sem dormir, 6h30min de caminhada, eu pisei no cume do Vulcão Lanín. Com um sorriso no rosto, enquanto meu olhos percorriam toda aquela paisagem que me era entregue, senti o gosto da concretização de um sonho, cujo planejamento vinha desde a idealização da expedição patagônia 2006. Eu estava feliz. Logo após chegou a expedição guiada e os amigos argentinos, comemoramos e batemos muitas fotos. Elói, o outro argentino que compartilhou o VHF conosco, não chegou ao cume, cedeu ao cansaço na metade da canaleta, junto com uma mulher da outra expedição. Fiquei por quase 50 minutos parado no topo do vulcão, e aí percebi que era necessário descer toda a montanha. A descida foi mais rápida, mais quente, porém um pouco mais perigosa. A neve amoleceu por causa do sol e começou a acumular constantemente nos grampos abaixo das botas. Quando os grampos enchiam de neve perdiam o contato e o escorregão era certeiro, sendo necessário travar a queda com a picareta. Assim, desci uma boa parte do trajeto de “ski-bunda”, ou seja, sentava na neve e deslizava como se fosse um trampolim, sempre controlando a velocidade com a piqueta. Depois de algumas horas regressando pelo mesmo caminho que subimos, chegamos no refúgio e começamos arrumar nossas coisas. Eu estava simplesmente acabado de cansaço, mas todos queriam descer para não ter que pagar um dia a mais de aluguel do rádio. Depois de fazer um rápido lanche, desci vagarosamente até o acampamento na beira da estrada, onde cheguei por último, sem condições sequer de conversar. Minhas últimas energias serviram apenas para montar a barraca e abrir o saco de dormir, onde deitei e dormi por mais de 15h. No dia seguinte, a tarde, nos despedimos dos amigos e eu e Elói fomos para a cidade de San Martin de Los Andes. No mesmo dia Elói foi para Bariloche e eu procurei um albergue para dormir para no dia seguinte seguir minha viagem. Já na estrada novamente, pela janela do ônibus, via o Lanín muito distante, marcando a paisagem pela sua altura e beleza. Fiquei olhando para ele por alguns momentos até que se perdeu de vista no horizonte. Coloquei meus fones de ouvido e segui pelo caminho dos andes.

Dicas para quem quiser escalar o Vulcão Lanín:

  • Você pode partir de Junín de Los Andes ou San Martin de Los andes. San Martin é maior e possui opções melhores de lojas, albergues, etc.
  • Em Junín a empresa "Alquimia" realiza o transporte até o vulcão, por 25 pesos. Na rodoviária há também ônibus ao vulcão, mas é mais caro.
  • Na praça de Junín de Los Andes há um quiosque de informações turísticas sobre o vulcão.
  • Há um camping em frente ao vulcão, por 6 pesos ao dia, com banheiros e comida para vender. Ali pode-se alugar também crampões, rádios, piquetas, botas duplas e outros equipamentos.
  • Não esqueça de fazer o check-up dos equipamentos junto a administração do parque, que fica ao lado do camping. Eles irão te fornecer dicas preciosas sobre o tempo, sobre a rota, e ainda reservar um local para dormir num dos três refúgios gratuitos.

  • Visite o site da administração do parque, lá contém uma série de informações importantes.
    Se você quiser escalar a face sul (técnica), leia o site da administração e veja os mapas, pois é necessário tomar um ônibus diferente.
  • Sobre a Face sul do Lanín há um relato de escalada interessante do paulista Maurício Grego. Clique aqui para ver. Há dicas interessantes no site também.

  • Caso necessite de mais informações entre em contato que terei o maior prazer em ajudar.
  • Boa escalada.

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