23 de outubro de 2008

Mais uma lesão de dedo na Escalada

Meu nome é Lilian Beck Tsuhako, tenho 24 anos e sou escaladora de Caxias do Sul, sou Massoterapeuta e estudante de Fisioterapia. No dia 12 de abril de 2008, sofri uma das lesões mais comuns em atletas de escalada esportiva, é a lesão das bainhas (polias) que protegem os tendões dos dedos da mão.

Eu estava entrando num projeto (Vertigem – 9b), e ao aplicar muita força num reglete do crux da via, senti um estralo no dedo anular da mão esquerda seguido de dor intensa. Mesmo com o conhecimento estrutural e funcional dos dedos da mão, eu não tinha muita noção da ocorrência das lesões de polias na escalada e muito menos sentido na pele o quanto essa lesão é doída e delicada. Como todo escalador teimoso, logo após a lesão, mesmo com dor e limitação do movimento de flexão do dedo, fiz muito gelo e decidi aproveitar o feriado para dar uma escalada. A teimosia rendeu meu primeiro oitavo a flash e possivelmente o agravamento da minha lesão e o adiamento do meu retorno a um ritmo normal de escalada.

Quando chegou ao ponto em que a dor era insuportável apenas no contato superficial do dedo com as agarras, resolvi cessar a escalada imediatamente. Procurei ajuda profissional e a jornada foi longa até eu obter um diagnóstico preciso e iniciar um tratamento eficaz. Entre médicos, fisioterapeutas, educadores físicos, colegas acadêmicos, amigos escaladores e muitas rezas, por indicação de uma amiga fisioterapeuta procurei um ortopedista especialista em mão que me receitou antiinflamatório e finalmente pude fazer fisioterapia. Durante dois meses e meio sem escalar, vinte sessões de fisioterapia somadas a muito pensamento positivo possibilitaram o meu retorno ao esporte, mas com muita paciência e consciência. Uso esparadrapo nas falanges média e proximal como um auxílio na proteção e não como substituto das polias, sempre faço alongamento e exercícios de aquecimento nos dedos antes de entrar nas vias. Estou recuperada e voltei a treinar e fazer força nos negativos da Gruta com muita motivação para novas cadenas.

Vertigem – 9b
Gruta da Terceira Légua - Caxias do Sul – RS
Foto: Roni Andres

O PIOR DE TUDO... é ficar sem escalar numa fase que se está motivada com um projeto e num ritmo bom de treinamento.

IMPORTÂNCIA DE SE OCUPAR O CORPO E A MENTE QUANDO NÃO SE PODE ESCALAR... o yôga como sempre, foi de suma importância, tanto fisicamente como mentalmente, e a musculação a qual me manteve ativa, onde tentei ao máximo gastar muita energia para compensar um pouco o tempo que fiquei afastada.

Paranóia (Primeiro 8a flash)
Caçapava do Sul – RS
Foto: Roni Andres

A PRIMEIRA COISA A SE FAZER... quando se sente dor ou se percebe que ocorreu uma lesão é cessar as atividades de escalada imediatamente para não agravar a situação. Ao repousar diminui-se o tempo de afastamento e evita-se uma lesão irreversível. Procurar um profissional é fundamental para se ter um diagnóstico, cada atleta é responsável pela sua saúde, mas para cada um decidir qual conduta vai seguir, é necessário que se saiba qual foi a lesão e a gravidade.

Vertigem – 9b
Gruta da Terceira Légua - Caxias do Sul – RS
Foto: Roni Andres

Com essa experiência pude valorizar mais tudo que engloba esse esporte, desde a prevenção através do alongamento e aquecimento até um aumento da consciência corporal e da motivação pelo prazer de simplesmente poder escalar.

Lilian Beck Tsuhako tem apoio da Conquista Equipamentos, Arwi – Sandvik, Uni – Yôga Mestre De Rose, Curso de Inglês InFlux e Academia Vidativa

Matéria de: Lilian Beck Tsuhako

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5 de outubro de 2008

Pedra da Águia e Cânion do Espraiado, Urubici, SC

Ano passado eu já havia estado na região de Urubici (SC), próxima à Serra do Corvo Branco. Ali, um uruguaio muito gente boa, o Juan, montou um refúgio de montanha, bem próximo onde já parece ter sido demarcada a área para um futuro parque nacional, o Campo dos Padres. A área é privada, e a boa vontade dos donos (O Juan só é dono do refúgio), parece variar mais com a fala de quem alerta o fato. Pela segunda vez, andei por lá sem nenhum problema. Como a previsão era de chuva, de quinta a sábado (e não ia dar muita escalada por aqui em Caxias), eu botei pilha no Juliano Perozzo, da Associação Caxiense de Montanhismo, para irmos acampar e dar uma banda pela região. Marcamos para sair quinta, na hora do almoço, mas como chovia a cântaros, só saímos às cinco da tarde. Paramos em Vacaria, para comprar singelos 9Kg da melhor maçã que já comemos. Seguimos por Lages, Urubici e de lá, são mais 30Km de estrada de terra bem conservada. Chegamos tarde, e as chaves do refúgio se encontravam simpaticamente na porta à nossa espera. Na manhã seguinte, demos um rolé, pela parte baixa, no vale do Rio Canoas (principal afluente do rio Uruguai) que nasce na parte alta dos campos. Lá, vimos a Pedra da Águia, uma imponente formação arenítica, de cento-e-poucos-metros. Resolvemos subir o colo da montanha, pela face norte (junto ao rio Canoas) varando bambuzal, pois não há trilha de acesso. Chegando à crista, notamos que o arenito era de fato muito mole e que qualquer tentativa de alcançar o cume pode implicar em grande impacto na formação. A vista foi maravilhosa, pois agora deslumbrávamos o vale do Canoas e o lado da face sul da pedra. Depois de muita contemplação, e a polêmica sobre designar os “periquitos” como maritacas ou caturritas, descemos pelo outro lado da colo, encontrando vez por outra, uma floresta de xaxim que nos aliviava do bambuzal. Na noite de sexta para sábado, São Pedro mostrou ao que veio e a chuvarada caiu a noite inteira até ao final da manhã. Havíamos impresso as imagens de satélite do Google Earth, e iríamos tentar seguir para o cânion do Espraiado, por um caminho (embora imaginássemos, não sabíamos se havia caminho) que acessava a borda direita do cânion (a partir do vértice), em um ponto bem distante do vértice. O caminho usual segue o vale do Canoas e sobe por uma trilha (na verdade uma péssima estradinha de terra, desafiadora para os melhores 4x4, até um trecho) até próximo ao vértice. Tomamos a trilha na face sul da Pedra da Águia e subimos, subimos, subimos....passamos um mangueiro, umas vacas soltas, pulamos algumas cercas e subimos, subimos, subimos, sempre debaixo de uma chuva fina. Por fim, chegamos a uma matinha, que parecia (muita neblina e pouca visibilidade) se estender até a borda, já próxima. Tomamos à esquerda, pulando mais uma cerca, e seguindo pela trilha dos bois. Por este caminho, percorremos um lindo trecho aberto de campo, onde podíamos ver ao longe à esquerda, o cânion do Canoas e a crista dos morros por onde segue o caminho usual, e à direita, a borda do Espraiado. Voltamos à mata e em um determinado instante, a trilha apresenta uma bifurcação à direita, que segue até uma das primeiras “torres” do cânion. Nós continuamos e em pouco tempo, chegamos a uma área descampada, já na borda direita do dito cujo. O tempo começava a dar sinais de melhora, mas a ventania era medonha. Aos poucos a paisagem se abria num canto, fechava em outro, mas conseguimos ver a imponência do Cânion do Espraiado. Pausa para o lanche (maçãs, maçãs e mais maçãs!) e continuamos em direção ao vértice. Embora quiséssemos continuar pela borda, os vários recortes e a presença de rios, nos forçaram em alguns momentos a nos embrenhar pelas matas de bambu (argh) e xáxim (ahh!). Com isso, nos afastamos mais do que pretendíamos da borda do cânion, indo encontrar a trilha usual, que sai em outro mangueiro, já próximo ao vértice. Um pouco a direita do vértice, um pouco acima do encontro de dois pequenos rios, encontramos uma área excelente para acampar, já às 18:00. Após o farto jantar de macarrão integral, proteína de soja, queijo, e sobremesa (maçãs, claro!), olhamos para cima e o céu, sem uma nuvem! A lua crescente nos dava uma bela iluminação, mas o frio e a ventania não nos permitiam tanta contemplação. Durante a noite, o vento realizou um belo teste da minha megasuperultraplusbarracanova Tabajara! No dia seguinte, colhemos o fruto de 2 dias de caminhada sob chuva: Nenhuma nuvem no céu e excelente visibilidade. Da barraca mesmo, era possível avistar a estrada da serra do Corvo Branco, que desce ao litoral, serpenteando a serra catarinense, um pouco ao norte da mais famosa estrada do Rio do Rastro. Caminhamos primeiro pelo trecho da borda direita, próximo ao vértice, onde se encontram duas torres colossais! Retomamos o caminho da borda esquerda, seguindo direto ao ponto mais elevado e distante da borda. A impressão era a de avistarmos todo o estado de Santa Catarina! De lá víamos o morro da igreja, considerado o ponto mais frio do Brasil. Voltamos margeando toda a borda esquerda do cânion, com aquela sensação de termos sido abençoados pela mãe natureza. A barraca já havia sido desmontada e devidamente malocada num mato próximo. Após eu (mais uma, de incontáveis vezes), esquecer alguma coisa fora da mochila, partimos lá pelas 17:20 horas, para a caminhada de retorno. Pegamos o caminho usual de acesso ao cânion, e quando o sol se pôs, a lua crescente, que nascera já no meio da tarde, nos iluminou o caminho. Da trilha, no lusco-fusco, ainda avistamos o rio Canoas em seu cânion. Antes de chegarmos a parte baixa, junto ao rio, estávamos apreensivos pela presença búfalos, que são criados no local, mas os bichanos se comportaram como lordes. Chegamos ao Refúgio às 20:00, exaustos (eu particularmente) e extasiados com o espetáculo da natureza. O Juliano, como nas outras noites que passáramos no abrigo, se deu ao trabalho de deixar o fogãozinho à lenha “bombando”, o que foi, literalmente, o ouro! Mais uma orgia alimentar, a base de macarrão, ovos e maçãs. No dia seguinte, acordamos cedo e o espetáculo era o campo coberto de geada. Deu -2 graus à noite no refúgio. Seguimos até Urubici, tomamos café e me caiu a ficha que havia esquecido o celular no refúgio, putqparghgrunch!, seriam mais 60Km, não antes de trocar o pneu furado por um prego de cerca, numa borracharia local. Tivemos certeza que foi uma maldição por tantas cercas puladas! Tomamos enfim o caminho de casa, onde apostas sobre o a presença de belas muchachas nos pedágios, me assegurou 3 cervejinhas na conta do Juliano, a ser paga no último grampo! Ah, sim:- ainda estamos comendo maçãs!
Nelson Brügger (ACM e CERJ) & Juliano Perozzo (ACM)

Matéria de: Nelson Brügger