30 de agosto de 2006

Diário de bordo - Expedição Invernal Cerro Plata 2006

17/07 - As 13h o Thomas passou aqui em casa para me dar uma carona. O Paulo estava aqui deixando umas coisas para o Humberto que está morando em Mendoza. As 14h saiu o ônibus para Porto Alegre. As 16:30 chegamos em Porto e o Igor foi comprar uns pesos e passar na Montanha pegar uns filmes. No rodoviária encontrei o Alcides do Curso de Instrutor de Turismo Aventura. Ele estava indo para Goiás e disse que no verão vão de van para os Andes. O Igor voltou e o Sandro chegou trazendo os grampões emprestados para o Igor e tomamos algumas cervejas confraternizando. As 11:30h saiu o ônibus para Córdoba, por R$123,00.

18/07 - Em Libres, gasolina a 1,79 pesos. A gasolina super é a Fangio (do pentacampeão mundial de F1). Ficamos 03:30h parados em Libres, na Alfândega. Passamos o túnel Paraná/Santa Fé as 18:25 e chegamos em Córdoba as 23h. De Córdoba, pegamos ônibus Mercobus, Plus Ultra por 50 pesos até Mendoza.

19/07 - As 08:30hs apareceu o sol e vimos as montanhas, todo o Cordón Del Plata, Tupungato e outras. Chegamos em Mendoza e fomos direto para o Hostel Huellas Andinas, na Rivadavia, 640, bem no centro, 16 pesos por dia.

20/07 - Escalamos uns boulders numas ruínas do Parque San Martin com o Humberto e Marcos. Últimos ajustes e uma cerveja com o chileno Vladimir, dormimos as 03:30h.

21/07 - As 09h, por 40 pesos cada um, fomos com um casal de irmãos de Campinas até a estação de esqui de Vallecitos, a 80 km de Mendoza, no pé do vale que dá acesso ao Plata e outras montanhas, a 3000m de altitude. Esquiamos e fiz a burrada de não contratar um instrutor para dar umas dicas. Só caí, reclamei pra caramba, mas foi legal. Quando estávamos provando os esquis, conheci Fideo (Martin) que nos falou do refúgio do Clube Andinista Mendoza, porque o Esqui Montanha estava lotado. Perfeito, galera tri gente fina: Elias, Manuel e Mariana. As 18h descemos da estação até o refúgio, uns 300 metros. Refúgio bem legal com 17 camas e fogão a lenha. Nessa tarde ventou e nevou forte, chegou a dar medo.

22/07 - Acordamos as 09:30 e levantamos as 10. Tomamos café. O tempo ruim, nevando, mas estável, com pouco vento. Arrumamos as coisas e porteamos quase tudo até Veguitas, 3200m. Nevando, afundando até as canelas e ás vezes até os joelhos. Saímos as 13:30, chegamos as 16:30, na companhia de um pássaro, talvez um pardal. Deixamos as coisas enroladas na manta aluminizada, cobrimos com pedra e gelo e as 17:20 iniciamos a descida. Trocamos os bastões pelo piolet e descemos em uma hora. Chegaram mais dois casais no refúgio e fizeram uma janta legal e riram tanto.

23/07 - Estávamos as 13:30 pronto para ir a Veguitas mas o vento contra, oeste, cerca de 100km/h, impossibilitou. As 17h a galera do refúgio partiu e nós descemos até o Refúgio da Universidade de Cuyo, de Mendoza. Fabian nos recebeu tri bem, lareira, banho quente, pão, ovo, cebola e maionese. Das 21 as 24 horas dormi após chá com mel e gengibre pra curar a febre em virtude da gripe. Igor me acordou pra jantarmos mais uma vez.

24/07 - O vento parou, acordamos bem, tomamos café e partimos ai pelas 11 horas. Na companhia de 4 argentinos lideramos quase todo o caminho até Veguitas. Eles iam para o Rincon. Em Veguitas pegamos os equipos que havíamos deixado dia 22 e subimos por uma linda crista até Pedra Grande, 3560m. A neve era constante e os últimos 500 metros vieram acompanhados de fortes ventos. Montamos a barraca, derretemos gelo, suco, chá, miojo e soja. Tudo tri, -7ºC as 21h. A noite não foi muito boa, vento, cristais de gelo dentro da barraca. Levantamos as 04:30, o Igor mijou um litro e eu comi mel, estava com a garganta irritada.

25/07 - Alguns raios de sol pintaram pela manhã, mas não durou muito. O resto do dia esteve encoberto e o vento diminuiu. Jogamos forca, cantamos, foi divertido. A noite o céu se abriu e com ele a perspectiva de subir a El Salto amanhã de manhã.

26/07 - Dormi bem, acordamos as 08:30 e estava –10ºC. Ficamos no saco de dormir até as dez horas, tomamos café e decidimos fazer uma caminhada até a entrada de um vale pequeno, indo para El Salto. Saímos as 14:45 e as 16hs estávamos um pouco acima de onde pretendíamos ir. Como de costume neve até as canelas em média. De lá víamos El Infernillo, último crux antes do Salto. Sem perder tempo voltamos até Pedra Grande. Almoçamos e jogamos Batalha Naval com os pés na bolsa de água quente. Jantamos e nos preparamos para dormir, são 01:38 de 27/07, -13ºC.

27/07 - As 08:30 Igor acordou e olhou pra fora, tudo azul, coisa linda! A chance de irmos até o Salto. As coisas estavam todas úmidas e colocamos tudo para fora para secar um pouco. Arrumamos as mochilas. Tomamos café, desmontamos a barraca e saímos as 13:50. O caminho inicial foi tranqüilo mas ao nos aproximarmos do Infernillo a coisa mudou. Um forte vento de Leste, por baixo, e outro de Oeste por cima, movendo a neve da crista das montanhas e encobrindo o céu azul. Entramos na crista do Infernillo. Linda, com pendentes fortes de cada lado, as vezes passando dos 50 metros. Um pé para cada lado e subindo um dos trechos mais bonitos e perigosos. Acabando a crista tínhamos que contornar um bloco de rocha pela direita. A neve, de um lado até o peito e de outro até a coxa, trocamos um bastão pelo piolet e anoiteceu!!! Saímos desta forte pendente de neve e entramos numa trilha de pedra que não demorou muito até entrarmos na última pendente de neve antes do Salto. Passamos ela e vimos o Campo Base e também as luzes de Potrerillos e Mendoza. Limpamos o lugar da barraca que estava encoberto por neve. Montamos a barraca sob vento, frio e neve. Colocamos as coisas para dentro, buscamos gelo, fizemos dois litros de chá e miojo mas, comemos pouco, estávamos sentindo o cansaço e a altitude, -14ºC, com rajadas fortes, dormimos lá pelas 24h. Até então uma das mais difíceis investidas de Alta Montanha.

28/07 - Acordamos por volta das 10h, tomamos chá e perto das 13h tomamos uma sopa, já que na noite anterior não conseguimos comer muito. As 16h um café com cereal e aí saí da barraca. O vento tinha parado, estava –16ºC, bati umas fotos e dei uma pequena caminhada e logo voltei a barraca, agora com um estoque maior de gelo. Chá, suco e preparativos para ataque ao cume. Arrumamos as mochilas, lanternas, kit rango, GPS,...Antes de anoitecer estava –20ºC. A idéia que o Humberto deu do fogareiro a gás para esquentar a barraca foi legal e adotamos constantemente. As montanhas estavam lindas e espero que dê tudo certo amanhã e tempo contribua.

29/07 - O vento incessante das 21h de ontem até as 07 de hoje, nos impediu de cozinhar no avanço e nos propiciou uma noite terrível. Ventos acima de 100km/h, nos abateu a ponto de cancelarmos o ataque. Hoje durante o dia, tranqüilo, e o 1º com sol. Caminhamos um pouco e tiramos fotos e até nos sentimos mais preparados para o ataque. Também visualizamos boa parte da rota e logo voltamos para a barraca. A temperatura média é de –15ºC, sem alterações bruscas como ontem, que variou 5º em 15 minutos e logo surgiram os ventos violentos, tornando nosso pré-ataque mais tranqüilo. A previsão é acordar as 04:30 e sair perto das 06 horas.

30/07 - Acordamos as 04:30 e saímos em direção a montanha as 06:45, estavam –21ºC. Caminhamos com as headlamps até quase 08 horas. Estávamos por uma crista ora neve ora rocha até um primeiro nevado forte e curto onde errei o caminho e quando vi estava escalando III grau, com os bastões soltos nos pulsos e mão (luvas) na rocha. O lance era exposto e desescalei e subi pelo gelo. Seguimos até o final do vale, quebrada Vallecitos, e iniciamos a subida de um nevado forte e relativamente longo, cerca de 800m, quase tudo em diagonal e no final uns 150/200 metros em linha reta até a crista Lomas Amarillas / Plata. 90% do nevado tinha quase meio metro de profundidade e inclinação média de 35/40º. Na metade da subida começou a ventania, que jogava neve contra nós quase incessantemente. Demoramos cerca de duas horas para vencer este nevado que minou nossas energias. A crista Lomas/Plata nos proporcionou uma linda visão da Quebrada de La Angostura, com rampas de neve e gelo muito extensas, incorrendo em vários trechos bem expostos. O vento continuava, a neve na cara, e fomos subindo em direção a crista Plata/Vallecitos mas não chegamos lá. Ventos com rajadas de mais de 100km/h castigavam-nos com neve como se fosse tempestade de areia, aliado ao frio e a exposição, decidimos retornar logo após o meio dia, a 5000m de altitude.

31/07 - A expedição ainda não acabou. Ventos fortíssimos dificultam nossa organização para descer a montanha. Já a temperatura está mais amena. A 1ª vez que faz zero grau, talvez o dia mais quente. Ontem a noite estava –18ºC. Durante a expedição chorei três vezes, ambas pelos mesmos motivos: a importâncias dessas pessoas na minha vida: minha mulher Elisa, meu pai (falecido) e minha mãe. A meu pai, Waldemar Perozzo, dedico esta escalada, que foi a mais surpreendente da minha vida. Dele aprendi muito, e mesmo agora, sem poder tocá-lo, abraçá-lo, as lembranças ainda me ensinam. A minha mãe quero cuidá-la como nunca fiz antes e a minha mulher quero amá-la até o fim da minha vida e torná-la o mais feliz possível. Ao meu companheiro Igor agradeço muito pois nos entendemos bem e soubemos conduzir conjuntamente as tomadas de decisões em todos os níveis e agradeço também a seu belo trabalho de logística da expedição.Agradeço também aos apoiadores: High Industrial, FotoCine Caxias, Prado Distribuidor, Manaslu, Associação Caxiense de Montanhismo e Snake. E também a Fruteira Ecológica, Sgorla e Eletrônica Central. Ao amigo Sandro, Humberto (pelas dicas e apoio moral) e ao Marcelo que ficou com as broncas aqui em Caxias e a Elisa que segurou as pontas da Empresa. Às minhas irmãs, irmãos e sobrinhos que também me apoiaram.

Obrigado a todos!!!!!!!!!!
Juliano Perozzo, 09 de agosto de 2006.

Para realizar a expedição os montanhistas tiveram apoio da High, Snake, Fotocine Caxias, Manaslu Equipamentos, Prado Distribuidora, Casa do Queijo Sgorla, Eletrônica Central, Fruteira Ecológica e Associação Caxiense de Montanhismo.


20 de agosto de 2006

Algumas características das plantas sobre as rochas

As rochas estão por todo lugar, e hoje são um dos ambientes terrestres mais bem preservados de todo o planeta, sendo assim importantes refúgios para muitas plantas sensíveis ao fogo, ao gado e a várias outras atividades humanas. Na África do Sul, por exemplo, país quase todo varrido por incêndios, as plantas sensíveis ao fogo estão quase sempre confinadas nas paredes rochosas; na China acontece o mesmo, seu território foi praticamente todo convertido em áreas de agricultura, e somente as rochas e as montanhas elevadas abrigam uma vegetação original, mesmo assim bastante atingida pelos caçadores de bonsais. Em diversos estados do Brasil, principalmente no nordeste, toda a área plana foi convertida também em pastos ou plantações, e muitas vertentes de montanhas são alcançadas pelas cabras e pelo fogo, de modo que a escassa vegetação original fica quase sempre restrita às paredes rochosas de difícil acesso. Em um levantamento desse tipo de vegetação feito no maciço do Itatiaia, foram encontradas 114 espécies em apenas 800m2, que representam cerca de 25% do total de espécies do planalto. No incêndio de 2001, as manchas de vegetação sobre rocha não queimaram, o que mostra mais uma vez a importância das rochas como refúgio para muitas plantas. A divulgação e crescente popularização dos esportes de aventura e ao ar livre vêm ameaçando as áreas naturais em geral, e também a vegetação sobre rocha, que tem aí seu maior fator de impacto, pelo menos nas zonas temperadas. No Brasil, é freqüente também a retirada de plantas para o comércio ilegal, e são muitos os relatos de incêndios propositais nas paredes rochosas no nordeste e no Espírito Santo, bem de acordo com a piromania nacional. O que as plantas sobre rocha têm de especial? As plantas encontradas nos paredões podem ser rupícolas, quando crescem diretamente sobre a rocha, ou saxícolas, quando se localizam em pequenos platôs ou fendas com solo. Nessas situações, a água que chega escoa rapidamente e os nutrientes são escassos. Por isso, as plantas crescem bem devagar, e muitas têm adaptações especiais para lidar com a escassez de água, como é o caso dos cactos e bromélias formadoras de tanques, que armazenam água, ou das orquídeas e bromélias do gênero Tillandsia, que conseguem captar rapidamente a umidade das nuvens, ou ainda as velózias (canelas-de-ema) e capins-ressurreição, que toleram a dessecação violenta das folhas com posterior re-hidratação das mesmas folhas. Algumas plantas são tão especializadas neste ambiente limitante que continuam crescendo devagar, mesmo se adubadas e irrigadas1. A bromélia Vriesea goniorachis, aquela espécie de folhas pontudas, comum nas faces norte dos morros do Rio de Janeiro, faz parte de um dos grupos mais especializados no hábito rupícola, ainda muito pouco estudado taxonomicamente (no que diz respeito à distinção entre as espécies e seus nomes), mas se sabe que cresce de forma extremamente lenta e resiste à adubação também. Não é fácil se fixar na rocha. Imaginem quantas sementes se perdem por secura ou enxurrada para que uma se fixe e, finalmente, cresça. Basta observar uma via inacabada na face S do Pão de Açúcar, o Paredão Universal, para constatá-lo: ela começou a ser conquistada na década de 60, mas depois foi abandonada e até hoje não apresenta sinal claro de recuperação da vegetação luxuriante que cobre esta face úmida da montanha. É muito difícil para uma semente conseguir viajar de uma montanha para outra e, além disso, chegar a germinar. Talvez por isso haja tantas plantas que são específicas de uma ou de poucas montanhas adjacentes. Plantas em diferentes montanhas, quando não trocam sementes ou pólens, vão se tornando cada vez mais diferentes até que formam espécies distintas, e assim surgem os muitos casos de endemismo restrito (espécies só encontradas em uma única montanha). Depois que algumas espécies mais tolerantes se fixam, começa a haver a interceptação de partículas de rocha, de húmus e detritos de plantas, e assim surge um protossolo, em que vão crescer outras plantas, como algumas gesneriáceas, bromélias e aráceas. Em geral, há primeiro a entrada de liquens e musgos, que crescem extremamente devagar (alguns liquens crescem apenas 1mm por ano!). Essas plantinhas minúsculas vão decompondo a rocha química e fisicamente, e vão juntando um pouco de solo embaixo de si, e assim também ajudam as sementes das outras espécies a se fixar. Estas então germinam e começam a crescer de forma bastante lenta também. Algumas delas crescem prostradas na rocha, e formam algo parecido com um tapete, que ajudam ainda mais a fixar partículas de solo, e mais e mais espécies conseguem se estabelecer ali. No entanto, muitas vezes esses extensos tapetes estão precariamente presos na rocha, quase que apenas aderidos, e sua retirada, bastante fácil, interrompe um processo de décadas ou mesmo de séculos de duração. Em resumo, podemos dizer que essas espécies crescem devagar, têm dificuldade de estabelecimento (germinação + fixação) e, portanto, "investem'' na longevidade. Estas plantas são, no mais das vezes, muito velhas! Ruy Alves, pesquisador do Museu Nacional do Rio de Janeiro, estimou a idade das canelas-de-ema do Pão de Açúcar, aquelas pequenas plantas de flores brancas (Vellozia candida) no caminho do Costão e Paredão São Bento, em cerca de 150 anos, e em cerca de 500 anos as canelas-de-ema gigantes da Serra do Cipó. Larson e colaboradores1, que são biólogos e também escaladores, do Canadá, mostram fotos de árvores encravadas em fendas das falésias de Niágara, totalmente depredadas por rapéis feitos em suas raízes e caules (além de podas de galhos para dar passagem cômoda), sendo que algumas tinham 1700 anos de idade e eram pequeninas como arbustos! Casos similares de árvores antigas podem ser possivelmente encontrados nas grotas e fendas das montanhas altas do Brasil, mas ainda não se têm dados sobre as mesmas. Por que as montanhas têm plantas diferentes umas das outras? Muitos fatores determinam quais plantas podem ser encontradas em uma certa montanha. Além do acaso e das chances das sementes terem chegado lá, as plantas são afetadas pelo regime de luz, pela rugosidade da rocha (tamanho dos cristais da rocha e forma de fragmentação), presença de fendas e outras concavidades, composição química da rocha e outros detalhes do relevo, além da presença de dispersores e polinizadores. Plantas muito diferentes são encontradas sobre quartzito, granito ou arenito, por exemplo. Também é bastante evidente o papel da insolação, da declividade e da umidade. No hemisfério sul, as paredes voltadas para o norte são as que recebem mais horas de sol e, nos trópicos, menos espécies conseguem crescer nestas faces, por conta do calor e da falta d´água. O contrário acontece nas regiões frias, onde mais espécies são encontradas nas faces que recebem mais sol. A declividade também define bastante quais espécies podem ser encontradas. Algumas delas só conseguem crescem em paredes verticais, enquanto outras dependem de um pouco de terra, e são mais comuns nas paredes menos inclinadas (as grandes bromélias, muitas canelas-de-ema). A umidade depende dos ventos, da insolação e da declividade da rocha, principalmente. Às vezes podem ser encontradas grandes diferenças em umidade em paredes próximas, como é o caso dos morros ao longo do litoral do Rio de Janeiro. As faces voltadas para o sul são geralmente atingidas por ventos vindos do mar, úmidos, e por conta disso, a vegetação nessas faces costuma ser luxuriante, com muitas espécies e grande densidade. Das 12 espécies de orquídeas existentes nas rochas do Pão de Açúcar, apenas duas ocorrem na vertente norte, enquanto as outras 10 habitam apenas as vertentes voltadas para o quadrante sul. A vegetação sobre rocha do sudeste do Brasil e de outros países tropicais da América do Sul é extremamente diversa, e rica em endemismos. Embora as rochas do oeste da África sejam por vezes muito similares às do Brasil, lá as mesmas espécies tendem a ser encontradas em longas distâncias, e muitos afloramentos rochosos compartilham aproximadamente os mesmos conjuntos de espécies. No Brasil, cada montanha ou conjunto de montanhas tem suas espécies particulares, principalmente de bromélias, orquídeas, samambaias e canelas-de-ema. A fragilidade da vegetação. Essa vegetação sobreviveu relativamente bem até hoje, mas na verdade é extremamente frágil. A fragilidade tem dois componentes importantes: a facilidade para remover a vegetação (resistência) e o tempo que ela leva para se recuperar (resiliência). Para retirar a vegetação sobre rocha não são necessárias nem grandes ferramentas, nem tratores, nem fogo, como em uma floresta. Basta a habilidade de subir (ou descer...) na rocha e a força de algumas pessoas, ou mesmo a passagem freqüente de cordas para causar um grande estrago. Já o tempo para a vegetação se reconstituir por meios naturais ainda não foi estimado, mas é certamente muito longo. Em locais com muitas fendas a vegetação pode voltar ao que era antes em menos de 100 anos, mas em superfícies lisas os processos são mais lentos. Esses tempos não foram medidos ainda justamente por estarem além da duração das nossas vidas, e pelo fato dessa vegetação muitas vezes ter sido vista com baixo interesse. A recuperação destas áreas é impressionantemente difícil e lenta, e no caso de se querer apressá-la, muito cara. O que é destruído agora tem de ser considerado como perda total, a não ser que sejam implementados programas intensivos de recuperação. A velocidade com que novas vias vêm sendo estabelecidas ameaça a estabilidade da vegetação e mesmo a existência de muitas espécies, e é preciso lutar por normas de conduta que minimizem o impacto em vias novas ou já criadas, ao mesmo tempo em que se tenta determinar um patamar máximo de retirada de vegetação das paredes. Infelizmente, com os dados de que dispomos hoje, que são poucos, não é possível estabelecer limites de uso com muita objetividade. Os trabalhos de Rogério de Oliveira foram os únicos no Brasil a fazerem uma amostragem sistemática das plantas sobre rocha também nas faces mais íngremes. Em geral, as coletas botânicas e os estudos ecológicos feitos com estas plantas se restringem às partes das montanhas que são alcançadas a pé com facilidade por um leigo em escaladas. Por esta razão, estima-se que quase todos os conjuntos de morros e montanhas no sudeste do Brasil têm espécies novas ainda por descobrir e descrever. É mais fácil destruir e não se importar com plantas que parecem um simples mato. E o que é o mato? Pra maior parte das pessoas, é aquilo que vive em qualquer lugar, que cresce em abundância, que "dá como mato''. Decididamente este não é o caso das plantas sobre rocha, muitas delas assim tão pequenas e na verdade mais velhas que nossas bisavós, e que conhecemos tão pouco. É responsabilidade de todos nós poupar e ensinar os outros a proteger essa vegetação da nossa sempre crescente velocidade.
Texto: Kátia Torres Ribeiro