30 de agosto de 2006

Diário de bordo - Expedição Invernal Cerro Plata 2006

17/07 - As 13h o Thomas passou aqui em casa para me dar uma carona. O Paulo estava aqui deixando umas coisas para o Humberto que está morando em Mendoza. As 14h saiu o ônibus para Porto Alegre. As 16:30 chegamos em Porto e o Igor foi comprar uns pesos e passar na Montanha pegar uns filmes. No rodoviária encontrei o Alcides do Curso de Instrutor de Turismo Aventura. Ele estava indo para Goiás e disse que no verão vão de van para os Andes. O Igor voltou e o Sandro chegou trazendo os grampões emprestados para o Igor e tomamos algumas cervejas confraternizando. As 11:30h saiu o ônibus para Córdoba, por R$123,00.

18/07 - Em Libres, gasolina a 1,79 pesos. A gasolina super é a Fangio (do pentacampeão mundial de F1). Ficamos 03:30h parados em Libres, na Alfândega. Passamos o túnel Paraná/Santa Fé as 18:25 e chegamos em Córdoba as 23h. De Córdoba, pegamos ônibus Mercobus, Plus Ultra por 50 pesos até Mendoza.

19/07 - As 08:30hs apareceu o sol e vimos as montanhas, todo o Cordón Del Plata, Tupungato e outras. Chegamos em Mendoza e fomos direto para o Hostel Huellas Andinas, na Rivadavia, 640, bem no centro, 16 pesos por dia.

20/07 - Escalamos uns boulders numas ruínas do Parque San Martin com o Humberto e Marcos. Últimos ajustes e uma cerveja com o chileno Vladimir, dormimos as 03:30h.

21/07 - As 09h, por 40 pesos cada um, fomos com um casal de irmãos de Campinas até a estação de esqui de Vallecitos, a 80 km de Mendoza, no pé do vale que dá acesso ao Plata e outras montanhas, a 3000m de altitude. Esquiamos e fiz a burrada de não contratar um instrutor para dar umas dicas. Só caí, reclamei pra caramba, mas foi legal. Quando estávamos provando os esquis, conheci Fideo (Martin) que nos falou do refúgio do Clube Andinista Mendoza, porque o Esqui Montanha estava lotado. Perfeito, galera tri gente fina: Elias, Manuel e Mariana. As 18h descemos da estação até o refúgio, uns 300 metros. Refúgio bem legal com 17 camas e fogão a lenha. Nessa tarde ventou e nevou forte, chegou a dar medo.

22/07 - Acordamos as 09:30 e levantamos as 10. Tomamos café. O tempo ruim, nevando, mas estável, com pouco vento. Arrumamos as coisas e porteamos quase tudo até Veguitas, 3200m. Nevando, afundando até as canelas e ás vezes até os joelhos. Saímos as 13:30, chegamos as 16:30, na companhia de um pássaro, talvez um pardal. Deixamos as coisas enroladas na manta aluminizada, cobrimos com pedra e gelo e as 17:20 iniciamos a descida. Trocamos os bastões pelo piolet e descemos em uma hora. Chegaram mais dois casais no refúgio e fizeram uma janta legal e riram tanto.

23/07 - Estávamos as 13:30 pronto para ir a Veguitas mas o vento contra, oeste, cerca de 100km/h, impossibilitou. As 17h a galera do refúgio partiu e nós descemos até o Refúgio da Universidade de Cuyo, de Mendoza. Fabian nos recebeu tri bem, lareira, banho quente, pão, ovo, cebola e maionese. Das 21 as 24 horas dormi após chá com mel e gengibre pra curar a febre em virtude da gripe. Igor me acordou pra jantarmos mais uma vez.

24/07 - O vento parou, acordamos bem, tomamos café e partimos ai pelas 11 horas. Na companhia de 4 argentinos lideramos quase todo o caminho até Veguitas. Eles iam para o Rincon. Em Veguitas pegamos os equipos que havíamos deixado dia 22 e subimos por uma linda crista até Pedra Grande, 3560m. A neve era constante e os últimos 500 metros vieram acompanhados de fortes ventos. Montamos a barraca, derretemos gelo, suco, chá, miojo e soja. Tudo tri, -7ºC as 21h. A noite não foi muito boa, vento, cristais de gelo dentro da barraca. Levantamos as 04:30, o Igor mijou um litro e eu comi mel, estava com a garganta irritada.

25/07 - Alguns raios de sol pintaram pela manhã, mas não durou muito. O resto do dia esteve encoberto e o vento diminuiu. Jogamos forca, cantamos, foi divertido. A noite o céu se abriu e com ele a perspectiva de subir a El Salto amanhã de manhã.

26/07 - Dormi bem, acordamos as 08:30 e estava –10ºC. Ficamos no saco de dormir até as dez horas, tomamos café e decidimos fazer uma caminhada até a entrada de um vale pequeno, indo para El Salto. Saímos as 14:45 e as 16hs estávamos um pouco acima de onde pretendíamos ir. Como de costume neve até as canelas em média. De lá víamos El Infernillo, último crux antes do Salto. Sem perder tempo voltamos até Pedra Grande. Almoçamos e jogamos Batalha Naval com os pés na bolsa de água quente. Jantamos e nos preparamos para dormir, são 01:38 de 27/07, -13ºC.

27/07 - As 08:30 Igor acordou e olhou pra fora, tudo azul, coisa linda! A chance de irmos até o Salto. As coisas estavam todas úmidas e colocamos tudo para fora para secar um pouco. Arrumamos as mochilas. Tomamos café, desmontamos a barraca e saímos as 13:50. O caminho inicial foi tranqüilo mas ao nos aproximarmos do Infernillo a coisa mudou. Um forte vento de Leste, por baixo, e outro de Oeste por cima, movendo a neve da crista das montanhas e encobrindo o céu azul. Entramos na crista do Infernillo. Linda, com pendentes fortes de cada lado, as vezes passando dos 50 metros. Um pé para cada lado e subindo um dos trechos mais bonitos e perigosos. Acabando a crista tínhamos que contornar um bloco de rocha pela direita. A neve, de um lado até o peito e de outro até a coxa, trocamos um bastão pelo piolet e anoiteceu!!! Saímos desta forte pendente de neve e entramos numa trilha de pedra que não demorou muito até entrarmos na última pendente de neve antes do Salto. Passamos ela e vimos o Campo Base e também as luzes de Potrerillos e Mendoza. Limpamos o lugar da barraca que estava encoberto por neve. Montamos a barraca sob vento, frio e neve. Colocamos as coisas para dentro, buscamos gelo, fizemos dois litros de chá e miojo mas, comemos pouco, estávamos sentindo o cansaço e a altitude, -14ºC, com rajadas fortes, dormimos lá pelas 24h. Até então uma das mais difíceis investidas de Alta Montanha.

28/07 - Acordamos por volta das 10h, tomamos chá e perto das 13h tomamos uma sopa, já que na noite anterior não conseguimos comer muito. As 16h um café com cereal e aí saí da barraca. O vento tinha parado, estava –16ºC, bati umas fotos e dei uma pequena caminhada e logo voltei a barraca, agora com um estoque maior de gelo. Chá, suco e preparativos para ataque ao cume. Arrumamos as mochilas, lanternas, kit rango, GPS,...Antes de anoitecer estava –20ºC. A idéia que o Humberto deu do fogareiro a gás para esquentar a barraca foi legal e adotamos constantemente. As montanhas estavam lindas e espero que dê tudo certo amanhã e tempo contribua.

29/07 - O vento incessante das 21h de ontem até as 07 de hoje, nos impediu de cozinhar no avanço e nos propiciou uma noite terrível. Ventos acima de 100km/h, nos abateu a ponto de cancelarmos o ataque. Hoje durante o dia, tranqüilo, e o 1º com sol. Caminhamos um pouco e tiramos fotos e até nos sentimos mais preparados para o ataque. Também visualizamos boa parte da rota e logo voltamos para a barraca. A temperatura média é de –15ºC, sem alterações bruscas como ontem, que variou 5º em 15 minutos e logo surgiram os ventos violentos, tornando nosso pré-ataque mais tranqüilo. A previsão é acordar as 04:30 e sair perto das 06 horas.

30/07 - Acordamos as 04:30 e saímos em direção a montanha as 06:45, estavam –21ºC. Caminhamos com as headlamps até quase 08 horas. Estávamos por uma crista ora neve ora rocha até um primeiro nevado forte e curto onde errei o caminho e quando vi estava escalando III grau, com os bastões soltos nos pulsos e mão (luvas) na rocha. O lance era exposto e desescalei e subi pelo gelo. Seguimos até o final do vale, quebrada Vallecitos, e iniciamos a subida de um nevado forte e relativamente longo, cerca de 800m, quase tudo em diagonal e no final uns 150/200 metros em linha reta até a crista Lomas Amarillas / Plata. 90% do nevado tinha quase meio metro de profundidade e inclinação média de 35/40º. Na metade da subida começou a ventania, que jogava neve contra nós quase incessantemente. Demoramos cerca de duas horas para vencer este nevado que minou nossas energias. A crista Lomas/Plata nos proporcionou uma linda visão da Quebrada de La Angostura, com rampas de neve e gelo muito extensas, incorrendo em vários trechos bem expostos. O vento continuava, a neve na cara, e fomos subindo em direção a crista Plata/Vallecitos mas não chegamos lá. Ventos com rajadas de mais de 100km/h castigavam-nos com neve como se fosse tempestade de areia, aliado ao frio e a exposição, decidimos retornar logo após o meio dia, a 5000m de altitude.

31/07 - A expedição ainda não acabou. Ventos fortíssimos dificultam nossa organização para descer a montanha. Já a temperatura está mais amena. A 1ª vez que faz zero grau, talvez o dia mais quente. Ontem a noite estava –18ºC. Durante a expedição chorei três vezes, ambas pelos mesmos motivos: a importâncias dessas pessoas na minha vida: minha mulher Elisa, meu pai (falecido) e minha mãe. A meu pai, Waldemar Perozzo, dedico esta escalada, que foi a mais surpreendente da minha vida. Dele aprendi muito, e mesmo agora, sem poder tocá-lo, abraçá-lo, as lembranças ainda me ensinam. A minha mãe quero cuidá-la como nunca fiz antes e a minha mulher quero amá-la até o fim da minha vida e torná-la o mais feliz possível. Ao meu companheiro Igor agradeço muito pois nos entendemos bem e soubemos conduzir conjuntamente as tomadas de decisões em todos os níveis e agradeço também a seu belo trabalho de logística da expedição.Agradeço também aos apoiadores: High Industrial, FotoCine Caxias, Prado Distribuidor, Manaslu, Associação Caxiense de Montanhismo e Snake. E também a Fruteira Ecológica, Sgorla e Eletrônica Central. Ao amigo Sandro, Humberto (pelas dicas e apoio moral) e ao Marcelo que ficou com as broncas aqui em Caxias e a Elisa que segurou as pontas da Empresa. Às minhas irmãs, irmãos e sobrinhos que também me apoiaram.

Obrigado a todos!!!!!!!!!!
Juliano Perozzo, 09 de agosto de 2006.

Para realizar a expedição os montanhistas tiveram apoio da High, Snake, Fotocine Caxias, Manaslu Equipamentos, Prado Distribuidora, Casa do Queijo Sgorla, Eletrônica Central, Fruteira Ecológica e Associação Caxiense de Montanhismo.


20 de agosto de 2006

Algumas características das plantas sobre as rochas

As rochas estão por todo lugar, e hoje são um dos ambientes terrestres mais bem preservados de todo o planeta, sendo assim importantes refúgios para muitas plantas sensíveis ao fogo, ao gado e a várias outras atividades humanas. Na África do Sul, por exemplo, país quase todo varrido por incêndios, as plantas sensíveis ao fogo estão quase sempre confinadas nas paredes rochosas; na China acontece o mesmo, seu território foi praticamente todo convertido em áreas de agricultura, e somente as rochas e as montanhas elevadas abrigam uma vegetação original, mesmo assim bastante atingida pelos caçadores de bonsais. Em diversos estados do Brasil, principalmente no nordeste, toda a área plana foi convertida também em pastos ou plantações, e muitas vertentes de montanhas são alcançadas pelas cabras e pelo fogo, de modo que a escassa vegetação original fica quase sempre restrita às paredes rochosas de difícil acesso. Em um levantamento desse tipo de vegetação feito no maciço do Itatiaia, foram encontradas 114 espécies em apenas 800m2, que representam cerca de 25% do total de espécies do planalto. No incêndio de 2001, as manchas de vegetação sobre rocha não queimaram, o que mostra mais uma vez a importância das rochas como refúgio para muitas plantas. A divulgação e crescente popularização dos esportes de aventura e ao ar livre vêm ameaçando as áreas naturais em geral, e também a vegetação sobre rocha, que tem aí seu maior fator de impacto, pelo menos nas zonas temperadas. No Brasil, é freqüente também a retirada de plantas para o comércio ilegal, e são muitos os relatos de incêndios propositais nas paredes rochosas no nordeste e no Espírito Santo, bem de acordo com a piromania nacional. O que as plantas sobre rocha têm de especial? As plantas encontradas nos paredões podem ser rupícolas, quando crescem diretamente sobre a rocha, ou saxícolas, quando se localizam em pequenos platôs ou fendas com solo. Nessas situações, a água que chega escoa rapidamente e os nutrientes são escassos. Por isso, as plantas crescem bem devagar, e muitas têm adaptações especiais para lidar com a escassez de água, como é o caso dos cactos e bromélias formadoras de tanques, que armazenam água, ou das orquídeas e bromélias do gênero Tillandsia, que conseguem captar rapidamente a umidade das nuvens, ou ainda as velózias (canelas-de-ema) e capins-ressurreição, que toleram a dessecação violenta das folhas com posterior re-hidratação das mesmas folhas. Algumas plantas são tão especializadas neste ambiente limitante que continuam crescendo devagar, mesmo se adubadas e irrigadas1. A bromélia Vriesea goniorachis, aquela espécie de folhas pontudas, comum nas faces norte dos morros do Rio de Janeiro, faz parte de um dos grupos mais especializados no hábito rupícola, ainda muito pouco estudado taxonomicamente (no que diz respeito à distinção entre as espécies e seus nomes), mas se sabe que cresce de forma extremamente lenta e resiste à adubação também. Não é fácil se fixar na rocha. Imaginem quantas sementes se perdem por secura ou enxurrada para que uma se fixe e, finalmente, cresça. Basta observar uma via inacabada na face S do Pão de Açúcar, o Paredão Universal, para constatá-lo: ela começou a ser conquistada na década de 60, mas depois foi abandonada e até hoje não apresenta sinal claro de recuperação da vegetação luxuriante que cobre esta face úmida da montanha. É muito difícil para uma semente conseguir viajar de uma montanha para outra e, além disso, chegar a germinar. Talvez por isso haja tantas plantas que são específicas de uma ou de poucas montanhas adjacentes. Plantas em diferentes montanhas, quando não trocam sementes ou pólens, vão se tornando cada vez mais diferentes até que formam espécies distintas, e assim surgem os muitos casos de endemismo restrito (espécies só encontradas em uma única montanha). Depois que algumas espécies mais tolerantes se fixam, começa a haver a interceptação de partículas de rocha, de húmus e detritos de plantas, e assim surge um protossolo, em que vão crescer outras plantas, como algumas gesneriáceas, bromélias e aráceas. Em geral, há primeiro a entrada de liquens e musgos, que crescem extremamente devagar (alguns liquens crescem apenas 1mm por ano!). Essas plantinhas minúsculas vão decompondo a rocha química e fisicamente, e vão juntando um pouco de solo embaixo de si, e assim também ajudam as sementes das outras espécies a se fixar. Estas então germinam e começam a crescer de forma bastante lenta também. Algumas delas crescem prostradas na rocha, e formam algo parecido com um tapete, que ajudam ainda mais a fixar partículas de solo, e mais e mais espécies conseguem se estabelecer ali. No entanto, muitas vezes esses extensos tapetes estão precariamente presos na rocha, quase que apenas aderidos, e sua retirada, bastante fácil, interrompe um processo de décadas ou mesmo de séculos de duração. Em resumo, podemos dizer que essas espécies crescem devagar, têm dificuldade de estabelecimento (germinação + fixação) e, portanto, "investem'' na longevidade. Estas plantas são, no mais das vezes, muito velhas! Ruy Alves, pesquisador do Museu Nacional do Rio de Janeiro, estimou a idade das canelas-de-ema do Pão de Açúcar, aquelas pequenas plantas de flores brancas (Vellozia candida) no caminho do Costão e Paredão São Bento, em cerca de 150 anos, e em cerca de 500 anos as canelas-de-ema gigantes da Serra do Cipó. Larson e colaboradores1, que são biólogos e também escaladores, do Canadá, mostram fotos de árvores encravadas em fendas das falésias de Niágara, totalmente depredadas por rapéis feitos em suas raízes e caules (além de podas de galhos para dar passagem cômoda), sendo que algumas tinham 1700 anos de idade e eram pequeninas como arbustos! Casos similares de árvores antigas podem ser possivelmente encontrados nas grotas e fendas das montanhas altas do Brasil, mas ainda não se têm dados sobre as mesmas. Por que as montanhas têm plantas diferentes umas das outras? Muitos fatores determinam quais plantas podem ser encontradas em uma certa montanha. Além do acaso e das chances das sementes terem chegado lá, as plantas são afetadas pelo regime de luz, pela rugosidade da rocha (tamanho dos cristais da rocha e forma de fragmentação), presença de fendas e outras concavidades, composição química da rocha e outros detalhes do relevo, além da presença de dispersores e polinizadores. Plantas muito diferentes são encontradas sobre quartzito, granito ou arenito, por exemplo. Também é bastante evidente o papel da insolação, da declividade e da umidade. No hemisfério sul, as paredes voltadas para o norte são as que recebem mais horas de sol e, nos trópicos, menos espécies conseguem crescer nestas faces, por conta do calor e da falta d´água. O contrário acontece nas regiões frias, onde mais espécies são encontradas nas faces que recebem mais sol. A declividade também define bastante quais espécies podem ser encontradas. Algumas delas só conseguem crescem em paredes verticais, enquanto outras dependem de um pouco de terra, e são mais comuns nas paredes menos inclinadas (as grandes bromélias, muitas canelas-de-ema). A umidade depende dos ventos, da insolação e da declividade da rocha, principalmente. Às vezes podem ser encontradas grandes diferenças em umidade em paredes próximas, como é o caso dos morros ao longo do litoral do Rio de Janeiro. As faces voltadas para o sul são geralmente atingidas por ventos vindos do mar, úmidos, e por conta disso, a vegetação nessas faces costuma ser luxuriante, com muitas espécies e grande densidade. Das 12 espécies de orquídeas existentes nas rochas do Pão de Açúcar, apenas duas ocorrem na vertente norte, enquanto as outras 10 habitam apenas as vertentes voltadas para o quadrante sul. A vegetação sobre rocha do sudeste do Brasil e de outros países tropicais da América do Sul é extremamente diversa, e rica em endemismos. Embora as rochas do oeste da África sejam por vezes muito similares às do Brasil, lá as mesmas espécies tendem a ser encontradas em longas distâncias, e muitos afloramentos rochosos compartilham aproximadamente os mesmos conjuntos de espécies. No Brasil, cada montanha ou conjunto de montanhas tem suas espécies particulares, principalmente de bromélias, orquídeas, samambaias e canelas-de-ema. A fragilidade da vegetação. Essa vegetação sobreviveu relativamente bem até hoje, mas na verdade é extremamente frágil. A fragilidade tem dois componentes importantes: a facilidade para remover a vegetação (resistência) e o tempo que ela leva para se recuperar (resiliência). Para retirar a vegetação sobre rocha não são necessárias nem grandes ferramentas, nem tratores, nem fogo, como em uma floresta. Basta a habilidade de subir (ou descer...) na rocha e a força de algumas pessoas, ou mesmo a passagem freqüente de cordas para causar um grande estrago. Já o tempo para a vegetação se reconstituir por meios naturais ainda não foi estimado, mas é certamente muito longo. Em locais com muitas fendas a vegetação pode voltar ao que era antes em menos de 100 anos, mas em superfícies lisas os processos são mais lentos. Esses tempos não foram medidos ainda justamente por estarem além da duração das nossas vidas, e pelo fato dessa vegetação muitas vezes ter sido vista com baixo interesse. A recuperação destas áreas é impressionantemente difícil e lenta, e no caso de se querer apressá-la, muito cara. O que é destruído agora tem de ser considerado como perda total, a não ser que sejam implementados programas intensivos de recuperação. A velocidade com que novas vias vêm sendo estabelecidas ameaça a estabilidade da vegetação e mesmo a existência de muitas espécies, e é preciso lutar por normas de conduta que minimizem o impacto em vias novas ou já criadas, ao mesmo tempo em que se tenta determinar um patamar máximo de retirada de vegetação das paredes. Infelizmente, com os dados de que dispomos hoje, que são poucos, não é possível estabelecer limites de uso com muita objetividade. Os trabalhos de Rogério de Oliveira foram os únicos no Brasil a fazerem uma amostragem sistemática das plantas sobre rocha também nas faces mais íngremes. Em geral, as coletas botânicas e os estudos ecológicos feitos com estas plantas se restringem às partes das montanhas que são alcançadas a pé com facilidade por um leigo em escaladas. Por esta razão, estima-se que quase todos os conjuntos de morros e montanhas no sudeste do Brasil têm espécies novas ainda por descobrir e descrever. É mais fácil destruir e não se importar com plantas que parecem um simples mato. E o que é o mato? Pra maior parte das pessoas, é aquilo que vive em qualquer lugar, que cresce em abundância, que "dá como mato''. Decididamente este não é o caso das plantas sobre rocha, muitas delas assim tão pequenas e na verdade mais velhas que nossas bisavós, e que conhecemos tão pouco. É responsabilidade de todos nós poupar e ensinar os outros a proteger essa vegetação da nossa sempre crescente velocidade.
Texto: Kátia Torres Ribeiro

10 de junho de 2006

Festa Julina no Refúgio da Canastra

Dia 22 de julho de 2006 acontecerá no Refúgio da Canastra mais uma edição da já tradicional festa julina. Pra quem não conhece o Refúgio Canastra está localizado na Canastra Alta, divisa entre os municípios de Três Coroas, Canela e São Francisco de Paula, em frente a uma das paredes mais freqüentadas pelos escaladores, o Pico da Canastra. O final de semana promete, quem quiser poderá chegar no sábado de manhã e escalar nos dois dias. O Refúgio oferece duas opções de pousada, no refúgio ou no camping. Para participar da festa é necessário fazer a reserva antecipada. A entrada será R$ 10,00 e dará direito a participação nas palestras e as comidas da festa. A festa será regada a pinhão, quentão, música típica e muitas escaladas. Haverá palestras e slide show com grandes montanhistas gaúchos, sorteios, distribuição de brindes e uma enorme fogueira.

Palestras :

Thiago Balen - slide show da recente viagem à Argentina;
Orlei Jr. - viagem ao Monte Roraima;
Luisi Peters e Ren - viagem que fizeram pra escalar as montanhas da região de Mendoza;
Ayr - dicas sobre orientação;

Informações e reservas :
Luisi Peters
Fone : (51) 9265.0942
E-mail : luisibw@yahoo.com.br
Divulgação: Odilei Medeiro

29 de maio de 2006

Rapel na Cachoeira do Caixão

Cachoeira do Caixão, 70 metros, Arroio Sepultura, Ilhéus, Vila Seca, Caxias do Sul. Estava na reunião da ACM na Quinta e perguntei se alguém estava a fim de encarar um rapel longo e caminhada para o feriado de Caravagio, e o Lucas Longhi se prontificou. Era um acompanhamento final do curso de escalada do Ricardo Varela, que levou sua namorada Taís. Partimos de Caxias cerca de 09 horas em direção à chácara do Samuel Finger, que viria mais tarde. Chegamos na fazenda e fomos recepcionados com um cafezinho pra orientar a galera. Logo partimos para montar o rapel e verificar se havia comprimento de corda suficiente. Tivemos que rebaixar ao máximo a linha de rapel e também deslocarmos o ponto de ancoragem para não descermos no meio do lago no pé da cascata (a intenção inicial era realizarmos um rapel guiado atravessando por cima do lago, mas as cordas eram curtas). Tudo pronto e sem conseguir visualizar se as cordas chagavam ao chão descemos o Lucas e eu. Observando a beleza da cachoeira refletida pelo sol, descemos devagar curtindo e fotografando. O Lucas só chegou ao chão devido ao alongamento da corda. Passamos um rádio comunicando o fato e liberamos o Ricardo e a Taís (que estava fazendo seu primeiro rapel) para descerem. Demonstrando muita coragem Taís desceu tranqüilamente e ambos chegaram em segurança na base, e muito molhados. Breve pausa para lanche, troca de camisetas e uma torcida nas meias e logo iniciamos a subida. Esperávamos uma mata fechada sem trilhas, como ocorreu em outro momento, mas descobrimos uma trilha bem batida e chegamos rapidamente até um mirante desconhecido, perto do topo da cascata. Descansamos ali observando um enorme paredão com muitas chances de escaladas e alguns boulders para serem abertos, enquanto secavam meias e camisetas. Logo o Samuel chegou, confraternizamos com a cachaça de gengibre com mel preparada pelo Thomas e logo em seguida recolhemos as cordas e viemos embora. Recepcionados com mais um belo café, conversamos com os proprietários até anoitecer. Saímos agradecidos pela hospitalidade tradicional dos Finger e felizes pela aventura vivida.
Texto: Juliano Perozzo

28 de maio de 2006

Patagônia 2006: A escalada do vulcão lanín

Era uma segunda feira, final de fevereiro de 2006, quando cheguei a pacata cidade de Junín de Los Andes, onde imediatamente saí em busca de informações sobre o Vulcão Lanín. Situado no sudoeste da Província de Neuquén, na Patagônia Argentina, o Vulcão Lanín localiza-se na área protegida de competência do Parque Nacional Lanín, a cerca de 110 km da cidade de San Martin de Los Andes. Lá estava eu, com um enorme desejo de conhecer e subir aquele imponente vulcão, admirando do seu cume a esplêndida paisagem da região dos lagos patagônicos chilenos e argentinos. Eu já estava bastante cansado antes mesmo de chegar ao vulcão, pois havia acabado de chegar de Bariloche, onde conheci a região do Frey e Cerro Catedral, onde caminhei bastante. Entretanto, naquele momento, perambulando pelas ruas da cidade, minha maior preocupação era encontrar alguma pessoa que estivesse disposta a compartilhar as despesas de aluguel de um rádio comunicador VHF. É que para subir o vulcão é necessário ter uma série de equipamentos exigidos pela direção do parque, entre eles um rádio VHF. Sem estes equipamentos você não ganha a autorização para subir. O aluguel do rádio VHF mais barato que encontrei na cidade custava 45 pesos argentinos por dia, o que seria muito caro para mim, que já estava viajando “na pendenga” a mais de dois meses. Como ainda não havia encontrado ninguém na cidade, resolvi comprar uma boa quantidade de comida e acampar na base do vulcão, local que supostamente seria mais fácil encontrar pessoas dispostas a subi-lo. Já com provisões para uns 6 dias na mochila, fui comprar a passagem para o Paso Mamuil Malal (Ex- Passo Tromén) e descobri que naquele dia o motorista sairia mais cedo. Voltei até o albergue correndo para arrumar minhas coisas. Cerca de 15 minutos antes da van vir me buscar, chegou no albergue um argentino de Buenos Aires, com uma mochila grande e uma piqueta pendurada nas costas. Imediatamente perguntei a ele se iria para o Vulcão Lanín e ele disse que sim, mas que não tinha um rádio comunicador. Sorte a minha, tinha acabado de conhecer uma pessoa na mesma situação, assim pelo menos o aluguel do rádio já sairia pela metade do valor. Eu e o argentino (Elói) fomos então com a van até o Paso Mamuil Malal, fronteira entre Argentina e Chile, onde montamos nossas barracas em um camping organizado. No dia seguinte ficamos descansando no camping já que o vulcão estava encoberto por uma grande massa de nuvens. Segundo as previsões meteorológicas na quinta-feira o mal tempo iria dar uma trégua, e assim esperávamos. Enquanto eu e Elói esperávamos a janela de tempo bom fizemos amizade com o funcionário que trabalha no camping e passamos o dia conversando e tomando mate argentino. Neste mesmo dia consegui ligar para casa de um telefone público que fica dentro do quartel de militares próximo ao camping, para avisar que estava tudo bem. No dia seguinte, torcendo que a previsão de tempo estivesse certa, acordamos cedo para fazer o Check-up dos equipamentos junto à direção do parque e solicitar autorização para ocupar um dos refúgios da montanha. O tempo já começava a melhorar e já era possível ver a cara leste do vulcão, justamente a rota que iríamos subir. Logo que saímos do camping encontramos dois argentinos de Bariloche (Xavier e Maurício) que estavam na mesma situação que a nossa, ou seja, tinham todo equipamento exigido pelo parque, com exceção do rádio VHF. Já fizemos amizade com eles e assim conseguimos compartilhar o valor do aluguel em quatro pessoas. Esperamos os argentinos de Bariloche se arrumarem e fizemos o Check-up dos equipos junto ao Guarda-Parque. Todos liberados e autorizados, começamos a caminhada até o refúgio que iríamos ficar, o “BIM26”. Saímos do camping, atravessamos um bosque, e logo demos início a uma caminhada sobre rocha vulcânica esfarelada. Em pouco tempo entramos numa rota chamada “espiña del pescado”, que sobe até uns 1.500 metros de altitude. Ali é necessário tomar a única via de acesso aberta aos refúgios, uma rota chamada “camiño de mulas”. Do refúgio “RIM26” é possível ir até os outros dois refúgios em cerca de meia hora. Gostaria de ter acampado no último refúgio, o “CAJA”, porque é mais alto, mas infelizmente já estava lotado. Chegando ao nosso refúgio, depois de 5 horas e meia de caminhada bem íngreme, fiz uma boa janta, tomei um chá e fiquei conversando com outras pessoas. Além de nós quatro, ainda estava no refúgio uma expedição comercial de 5 pessoas (com guia contratado), sendo 3 homens e 2 mulheres. Todos foram dormir cedo, descansar da subida e principalmente para acordar pela madrugada e fazer o ataque ao cume. Eu fui um dos últimos a deitar, fiquei observando o pôr do sol ao oeste e a sombra do lanín se projetando na planície leste. São momentos como este que justificam todo o esforço e o preço que se paga por estar ali, vendo com os próprios olhos. Depois dos últimos raios de sol fui deitar e não consegui pegar no sono. Na minha mente se atravessavam milhares de pensamentos enquanto estava deitado naquele chão de pedra fria. Estava preocupado com o tempo e não fechei os olhos um minuto sequer. Tentava me concentrar para dormir, mas ficava apreensivo e inconscientemente prendia minha atenção no ritmo da respiração das outras pessoas que estavam dormindo naquele refúgio. No meio da noite, enquanto todos dormiam, acabei saindo do refúgio por alguns instantes para ver o céu e as estrelas. E que céu! E que estrelas! Sem nuvens, o vulcão estava iluminado pela luz da lua, e acima de seu cume milhões de estrelas espalhadas no céu. Com toda certeza, uma das cenas mais bonitas que já vi. As 3h30min um relógio despertou e a expedição comercial que estava no refúgio começou a organizar sua saída. Enquanto isso eu também me levantava e preparava minhas coisas para sair logo, pois queria aproveitar as horas de noite no gelo, que estaria em melhores condições. Os argentinos que estavam compartilhando o rádio comigo também começaram a se preparar e saímos juntos, uns 15 minutos depois do grupo guiado. A noite estava linda, muitas estrelas podiam ser vistas no céu e o gelo duro apresentava excelentes condições. Se esperássemos pelo sol para sair o gelo derreteria e a caminhada na neve seria extremamente complicada. Caminhamos em fila por 20 minutos em uma trilha de muitas pedras e logo colocamos os grampões embaixo das botas. De saída subimos uma rampa de gelo e entramos num glaciar, onde contornamos uma série de grande gretas até alcançar o refúgio CAJA. Chegando lá entramos em um tramo de neve onde caminhamos por mais 1 hora até um grande platô, conhecido como “plateau de los 3000”. Bati algumas fotos do nascer do sol, que gerou uma coloração vermelha no gelo. Era possível ainda ver os lagos a quilômetros de distância encobertos por densas camadas de nuvens. Daquele local saímos pela direita, observando o Vulcão Villarica, que lançava uma fumaça negra da sua cratera, e o Vulcão Quetrupillán, que explodiu em uma erupção há algumas décadas. Logo encontramos um grupo de 10 militares que também estavam subindo, saindo do refúgio "BIM". Subimos vagarosamente por uma grande rampa de neve de onde vi o sol nascer. Ali já estava mais cansativo caminhar devido a altitude um pouco elevada. Para suportar o frio nos pés cobri minhas botas de trekking com duas sacolas plásticas de supermercado, sem contar os 3 pares de meias grossas. Mais algumas horas de caminhada e entramos em outro setor na montanha, chamado de "canaleta del cumbre", o único local de acesso ao cume pela cara norte da montanha e o último grande desafio para quem sobe por esta rota. Foi muito cansativo subir este trecho devido a sua grande inclinação, o que fez com que várias vezes pedras rolassem para baixo quando alguém as tocava. Quase no final da canaleta entramos num trecho misto, com gelo, pedras e neve, onde era preciso fazer passagens e travessias um pouco expostas. Dali para cima não havia nada para impedir a chegada ao cume. Olhei para baixo e meus três amigos argentinos estavam a uns 100 metros, junto com a expedição guiada. Para cima os militares entravam em uma rota pela direita, quando o mapa dizia que era melhor pela esquerda. Saí de um grande platô de gelo e entrei na rota da esquerda. Caminhei mais alguns minutos ignorando todo o cansaço que tomava conta do meu corpo, e a forte dor na perna esquerda. Faltando poucos metros para chegar no cume comecei a gravar um vídeo com minha máquina digital, mas as pilhas acabaram. Coloquei pilhas novas e reiniciei a gravação do vídeo. Um minuto e foi suficiente para terminar novamente com a carga das pilhas recém colocadas. Certamente a descarga das pilhas foi causada pelo frio. Eu só tinha mais 2 pares de pilhas no bolso e se as demais se comportassem da mesma maneira eu sairia da montanha sem uma foto de recordação, o que não admitia em nenhuma hipótese. Aqueci as pilhas na luva e coloquei na máquina torcendo para que funcionassem. Comecei a gravar novamente o vídeo caminhando lentamente por uma rampa de neve. Olhei para frente e vi o grupo de militares parado num grande platô, todos se abraçando, e depois deles não havia nada, apenas o horizonte se perdia de vista numa vista panorâmica. Naquele momento percebi que nada mais precisava subir e, assim, no dia 2 de março de 2006, às 11h20min, depois de mais de 30h sem dormir, 6h30min de caminhada, eu pisei no cume do Vulcão Lanín. Com um sorriso no rosto, enquanto meu olhos percorriam toda aquela paisagem que me era entregue, senti o gosto da concretização de um sonho, cujo planejamento vinha desde a idealização da expedição patagônia 2006. Eu estava feliz. Logo após chegou a expedição guiada e os amigos argentinos, comemoramos e batemos muitas fotos. Elói, o outro argentino que compartilhou o VHF conosco, não chegou ao cume, cedeu ao cansaço na metade da canaleta, junto com uma mulher da outra expedição. Fiquei por quase 50 minutos parado no topo do vulcão, e aí percebi que era necessário descer toda a montanha. A descida foi mais rápida, mais quente, porém um pouco mais perigosa. A neve amoleceu por causa do sol e começou a acumular constantemente nos grampos abaixo das botas. Quando os grampos enchiam de neve perdiam o contato e o escorregão era certeiro, sendo necessário travar a queda com a picareta. Assim, desci uma boa parte do trajeto de “ski-bunda”, ou seja, sentava na neve e deslizava como se fosse um trampolim, sempre controlando a velocidade com a piqueta. Depois de algumas horas regressando pelo mesmo caminho que subimos, chegamos no refúgio e começamos arrumar nossas coisas. Eu estava simplesmente acabado de cansaço, mas todos queriam descer para não ter que pagar um dia a mais de aluguel do rádio. Depois de fazer um rápido lanche, desci vagarosamente até o acampamento na beira da estrada, onde cheguei por último, sem condições sequer de conversar. Minhas últimas energias serviram apenas para montar a barraca e abrir o saco de dormir, onde deitei e dormi por mais de 15h. No dia seguinte, a tarde, nos despedimos dos amigos e eu e Elói fomos para a cidade de San Martin de Los Andes. No mesmo dia Elói foi para Bariloche e eu procurei um albergue para dormir para no dia seguinte seguir minha viagem. Já na estrada novamente, pela janela do ônibus, via o Lanín muito distante, marcando a paisagem pela sua altura e beleza. Fiquei olhando para ele por alguns momentos até que se perdeu de vista no horizonte. Coloquei meus fones de ouvido e segui pelo caminho dos andes.

Dicas para quem quiser escalar o Vulcão Lanín:

  • Você pode partir de Junín de Los Andes ou San Martin de Los andes. San Martin é maior e possui opções melhores de lojas, albergues, etc.
  • Em Junín a empresa "Alquimia" realiza o transporte até o vulcão, por 25 pesos. Na rodoviária há também ônibus ao vulcão, mas é mais caro.
  • Na praça de Junín de Los Andes há um quiosque de informações turísticas sobre o vulcão.
  • Há um camping em frente ao vulcão, por 6 pesos ao dia, com banheiros e comida para vender. Ali pode-se alugar também crampões, rádios, piquetas, botas duplas e outros equipamentos.
  • Não esqueça de fazer o check-up dos equipamentos junto a administração do parque, que fica ao lado do camping. Eles irão te fornecer dicas preciosas sobre o tempo, sobre a rota, e ainda reservar um local para dormir num dos três refúgios gratuitos.

  • Visite o site da administração do parque, lá contém uma série de informações importantes.
    Se você quiser escalar a face sul (técnica), leia o site da administração e veja os mapas, pois é necessário tomar um ônibus diferente.
  • Sobre a Face sul do Lanín há um relato de escalada interessante do paulista Maurício Grego. Clique aqui para ver. Há dicas interessantes no site também.

  • Caso necessite de mais informações entre em contato que terei o maior prazer em ajudar.
  • Boa escalada.

10 de maio de 2006

Parceiros de escalada

Salvo se você for um amante da solidão absoluta, quando for para as montanhas, juntamente com a marca do papel higiênico, da corda e do arroz, terá que escolher um companheiro que te acompanhe. Ainda que você não acredite, existem coisas que podem ser mais importantes que a preparação física, o hábito de limpeza ou a capacidade técnica.

Confira abaixo os principais grupos de companheiros expedicionários.

Grupo A: São os que todo o tempo fazem tudo o que há para se fazer. Acordam antes de todos e preparam o café da manhã. Antes da viagem fazem as compras. São os que durante horas proporcionam neve para fabricar água. Enquanto seus companheiros descansam ou dormem, tomam conta do fogareiro para que a barraca não se incendeie ou que a sopa não se derrame. Nunca usam luvas quando a tarefa é necessária deve ser feita com a mão nua. Estão sempre acordados quando o vento desarma a barraca ou quando há que se sair para tirar o excesso de neve do teto. Tiram as fotos, armam os rapéis, arrumam a corda, oferecem balas e água, cevam o chimarrão....

Grupo B: Os preguiçosos com complexo de culpa! Trata-se de pessoas muito honradas. Se não fora por suas limitações morais, poderiam pertencer ao grupo C, mas a maldita consciência atormenta suas vidas. Preferem não fazer nada, mas a desigualdade acaba por lhes perturbar o sono. Então assumem importantes tarefas: pegar um pacote de queijo ralado, arrumar a barraca e ver se está nublado. A este mesmo grupo pertencem os que não fazem nada mas acreditam serem imprescindíveis. Sua função é dar ordem a todo o resto, comodamente deitados...O companheiro haverá armado a barraca, buscado neve, derretido água e cuidado o fogareiro por uma hora (sempre sob as ordens e supervisão do arrogante). A cena está perfeita, então o arrogante dirá satisfeito ao seu laborioso companheiro: Gostou da comidinha que te preparei? (a história é real) .

Grupo C: Os preguiçosos, sem consciência, mas com instinto de sobrevivência. Não fazem nada e não sentem culpa por isso. A única forma de que trabalhem é que sua vida corra perigo. Possuem uma extraordinária faculdade que poderíamos denominar "quarta lei da termodinâmica": todo objeto que num momento determinado seja necessário, estará a respeito deles o dobro do quadrado da distância entre esse objeto e seus companheiros. Seu cantil será o mais profundamente guardado dentro da mochila quando se tenha que recarregar a água. Se eles estão fora da barraca, o trabalho estará dentro e vice versa. Se é necessário tirar as luvas para alguma coisa, eles terão postos 14 pares. São uns modelos perfeitos, saem em todas as fotos. Têm duas posturas típicas: deitados dentro do saco de dormir ou de pé com as mãos no bolso. É muito provável que alguns tenha aprendido a mijar sem usar as mãos. São uns autênticos egoístas.

Grupo D:
Os idealistas da preguiça! Em 1988, enquanto fazíamos uma aproximação à base do cerro Tolosa em Mendoza, presenciei uma cena que exemplifica perfeitamente esse tipo de atitude. Final de tarde, já estabelecidos no lugar de acampamento duas barracas. Havíamos chegado bem sedentos, com muito pouca reserva de água. Na minha barraca não havia problemas, meu companheiro era um típico expoente do grupo A, e se ocupou de quase tudo, incluso de "fazer" água. A outra barraca, integrada por dois expoentes do grupo D, restava-lhes um resto de água num cantil. Como resolveram o problema da sede por esse dia? Fizeram água? Não. Repartiram a água? Tampouco. Preferiram algo parecido à roleta russa. Fizeram um sorteio. O que ganhou tomou a água. O que perdeu foi dormir. São seres estanhos. têm uma lógica diferente. Sua escala de valores e prioridades é extremamente simples: nunca fazem nada. Toda outra questão é acessória, postergável, prescindível. Carregam a menor mochila, são os últimos a acordarem, chegam tarde, não treinam, não sabem nunca para que serve alguma coisa, as vezes não sabem aonde estão. Merecem certo respeito pois são os mais idealistas de todos: sacrificam suas próprias vidas antes à renunciar a sua preguiça. Acabamos por perdoá-los.

Grupo E:
São autos destrutivos. Não são preguiçosos, eles fazem coisas, mas estão atrás de tudo o que possa lhes prejudicar. Carregam todo o tempo objetos pesadíssimos e desnecessários. Regulam mal os Crampões. Nas saídas de alta montanha quebram os óculos. Não tomam água. Derrubam a panela cheia de sopa encima de suas bolsas de dormir. Sempre têm uma extravagante desculpa às suas condutas niilistas. Em alta montanha não o perca de vista, podem não aparecer mais. Convêm que você, antes de sair à alta montanha com um indivíduo desse grupo, aprendas mecânica, primeiros socorros e algo de psicologia. E se você for nervoso, que deus te ajude.

Como funcionam as coisas entre os membros dos distintos grupos?

Os do GRUPO A se dão bem com quase todos, melhor ainda se é com um do GRUPO E. Ao primeiro lhe encantará resolver a extravagante gama de problemas que lhe ira criando um do GRUPO D. Será como um jogo. Estas relações funcionam e podem prolongar-se. Estranhamente pode haver problemas quando se juntam dois do GRUPO A (coisa difícil pois há muito poucos), porque tendem a brigar para fazer as coisas e como as vezes tratam-se de indivíduos perfeccionistas, podem haver alguns "excessos" de ciúmes pelo trabalho e acontecerem alguns roces. O individuo do GRUPO B não se dá bem com ninguém do GRUPO A. como conhece perfeitamente a intimidade da preguiça não vai deixar passar nada aos demais. Rodeados de pessoas do GRUPO C ou D devem assumir o papel de GRUPO A. isto lhes leva a ressentir-se contra o mundo, sentem-se explorados. Um formoso e abundante manancial de problemas...O do GRUPO C somente trabalhará quando estiver esgotado a paciência de seu companheiro e este o ordene que faça algo. Ao do GRUPO D o podem humilhar, ordenar, o podem deixar morrer de fome e sede, que não fará nada. Se misturamos estes dois grupos a coisa fica séria. Uma das probabilidades é que o primeiro termine fazendo as coisas para ele somente, enquanto o outro tenta sobreviver deitado dentro do saco de dormir e sem tirar as mãos! Uma sábio conselho? Identifique alguém do GRUPO A, se apresente e se faça amigo. Depois não o largue!

Agora digam: A que grupo vocês pertencem?

Fonte: http://www.alborde.com.ar/

6 de maio de 2006

Entrevista com Lilian Beck Tsuhako

Confira a entrevista com a escaladora caxiense Lilian Beck Tsuhako. Há alguns anos Lílian vem se destacando no cenário montanhista gaúcho e recentemente acaba de se tornar a primeira mulher a escalar uma via de 9a aqui no Rio Grande do Sul.

Como se sente depois de ser a primeira gaúcha a mandar um 9a ?

Eu me sinto muito feliz e pilhada para treinar cada vez mais para encadenar muito mais vias, tanto mais fáceis que ficaram para trás como vias do mesmo nível ou mais difíceis que a “Durepox”.

O que a escalada esportiva representa na sua vida ?

A escalada pra mim é muito mais do que um esporte, é um desafio e um estímulo constante, um meio de auto-superação e autoconfiança incomparáveis.

Quais são os projetos futuros ?

Viajar mais para adquirir experiência (estou louca para escalar no Cipó), e ano que vem (2007) quero participar do Campeonato Brasileiro de Escalada Esportiva.

Existe algum apoio por parte de empresas ?

Tenho apoio da Botas Nômade, Agarrassauro e da Rede De Rose – Uni-Yôga.

Qual o seu maior sonho na escalada ?

Meu sonho é me tornar uma escaladora de nível e poder escalar nos melhores points de escalada do mundo. E, se por acaso participar do Campeonato Brasileiro, ficar entre as primeiras do Brasil.

Qual a sua opinião sobre a escalada no Rio Grande do Sul (vias, estilos, acesso)? Falta alguma coisa ?

No momento, pelo que vemos e ouvimos, está faltando segurança nos points de escalada.

Embora tenha encadenado a Durepox, tem alguma via que te marcou mais? Qual e por quê?

Sim, a “Apocalipse (8C)”, porque foi bem trabalhosa e pra variar, a passada do crux dela é super esticada pra mim, então foi uma surpresa conseguir fazê-la e demorei mais para encadená-la.

Como é a base do seu treinamento ?

Bom, até um mês atrás que o muro que fizemos na casa do Lucas(Araújo) ficou pronto, fazia mais de meio ano que eu não treinava, então ainda não estou com um treino formado, mas só sei que preciso baseá-lo principalmente em “resistência”.

Além da escalada, o que mais você faz? estuda ? trabalha?

Eu trabalho, sou massoterapeuta, estudo, faço Fisioterapia na Universidade de Caxias do Sul e pratico yôga na Universidade de Yôga Rede De Rose.

Deixe um recado para as mulheres que pretendem iniciar na escalada.

“ Vale a pena se puxar para treinar e evoluir na escalada porque a sensação de auto-superação e satisfação com as conquistas é indescritível e incomparável.”

8 de abril de 2006

Dupla de alpinistas gaúchos chega mais uma vez ao topo do Monte Aconcagua

Os Instrutores de Escalada e Guias de Montanha Leandro Bazotti e Humberto Câmara Junior chegaram mais uma vez ao cume do Monte Aconcagua, na Argentina, utilizando uma rota alternativa chamada de falso polacos (a mesma utilizada pela dupla para subir a montanha no inverno de 2004). Eles permaneceram 19 dias na montanha e enfrentaram 5 dias de fortes nevascas a mais de 5 mil metros de altitude em um acampamento chamado de Campo 1. “nos dias de tempestade tínhamos de permanecer dentro da barraca devido aos fortes ventos que baixavam drasticamente a temperatura que passava dos 25 graus abaixo de zero” comenta Bazotti. “nestes dias muitas expedições de outros paises desistiram e quando a tempestade passou só restava nosso grupo na montanha, todos os outros haviam descido” acrescenta Humberto. A dupla fala ainda que a logística para este tipo de escalada é fundamental para que tudo saia bem. Na expedição estavam também seus amigos argentinos, Diego Tolin e Diana, esta que se tornou a argentina mais jovem a fazer cume por esta rota. “agora vamos realizar algumas palestras de divulgação desta expedição e iniciar as reuniões preparativas com os interessados em escalar a montanha na próxima temporada” declara Bazotti. Para aqueles que quiserem saber mais sobre suas aventuras e próximas expedições basta entrar em contato que eles terão o maior prazer em atendê-los. Em breve eles estarão disponibilizando aqui na pagina um relato mais detalhado e muito mais fotos, não percam! O telefone para contatar a dupla é o 51 – 968 13 584. “gostaríamos ainda de agradecer as empresas que sempre nos incentivam (Vertex Outsider, Snake Boots, Cereal Mix da Ritter e Atlas Alpinismo), e aos amigos e clientes pelos votos de felicidade e confiança, muito obrigado! Não podemos deixar de lembrar e agradecer os amigos da APECAM – Associação Porto Alegrense de Escalada Canhonismo e Alta montanha, e a Direção Provincial de Recursos Naturais de Mendoza pela grande ajuda, que sem seu apoio as coisas teriam sido muito mais complicadas burocraticamente, obrigado”